Falta de higiene favorece as pragas nas cidades

Para começar esta matéria acertando “na mosca”, sem trocadilho, a definição mais objetiva é: praga urbana é sinônimo de falta de higiene humana. Ao pé da letra é isso que repetem todos os especialistas e agentes públicos sanitários que lidam com o aumento da população de mosquitos, baratas, escorpiões, ratos e outros.

Além dos frequentadores habituais nas casas – como baratas e roedores -, a falta de higiene associada à abundância de alimento tem contribuído para a visita de “novos moradores”, como os mosquitinhos de fruta e de banheiro. Mas estes também passaram a ser presença comum em quintais, onde fezes de animais “chamam” para o banquete diário.

Segundo o Instituto Biológico de São Paulo, a explicação para a evolução dos casos e das complicações está associada aos quatro “As”. “Água, abrigo, acesso e alimento formam as condições adequadas para o surgimento das pragas, somadas às facilidades em reprodução em maior frequência e velocidade, sobretudo em períodos de temperaturas mais altas, onde a oferta de água e alimento é maior”, aponta estudo enviado pela assessoria de imprensa do órgão.

Mas se você está considerando que o inverno vai tirar esses “bichinhos” de sua casa, engana-se. A oferta de alimento continua abundante e, em todo o Brasil, é curto o período de frios com maior intensidade.

É fato, entretanto, que nos períodos de calor a situação piora. Daí a explicação para a maior proliferação de mosquitos e pernilongos nos longos períodos de estiagem. Eles se reproduzem na água, nela põem ovos e por lá larvas e pupas se desenvolvem.

Nos períodos chuvosos a multiplicação é ainda maior, ainda que o ser humano, novamente, contribua com fartura para o aparecimento de epidemias por manter uma série de locais com acúmulo de água durante o ano todo: caixas d’água, ralos e piscinas não cuidadas. Com as chuvas, a ausência de manutenção em calhas e a não eliminação de pneus, latas e vasos com água limpa gera criadouros “naturais” de mosquitos.

Segundo a Divisão de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde em Bauru as pragas mais comuns na cidade são de roedores, baratas, mosquitos, escorpiões e mosquitos. No último caso, notadamente o mosquito transmissor da dengue é o que tem causado mais preocupação na população (Aedes aegypti), em razão dos efeitos da doença, inclusive com óbitos.

“Com certeza os fatores determinantes na disseminação e incremento de índices de infestação das pragas são a falta de higiene, por comportamento inadequado da população na manipulação de alimentos e pela cultura do descarte irregular do lixo, doméstico ou não”, confirma o setor. 

Falta de higiene humana é, de outro lado, fator desagregador de qualquer política pública de saúde, explicam os especialistas consultados. Isso porque o poder público, a despeito de suas deficiências no combate e na resolutividade e aplicação de ações preventivas e educacionais, não consegue reverter o quadro em razão da manutenção em escala da origem do problema: a falta de higiene e limpeza por parte das pessoas.

“A falta de higiene e limpeza proporciona, associada a maus hábitos pelos usuários, mais oferta de alimentos às pragas. Isso associado à falta de organização ambiental nas instalações, como a presença de entulhos, restos de materiais de construção e até mesmo arquitetura inadequada do imóvel – o que favorece oferta de abrigo fácil á fauna sinantrópica – ampliam o efeito das pragas”.

Tanto a equipe da Divisão de Vigilância quanto do Instituto Biológico define que para o controle da praga é fundamental o conhecimento de sua biologia e hábito e a delimitação de ação estratégica para inibir e minimizar as causas.

Saída é combate aos quatro erros

Não tem jeito, qualquer abordagem para atacar as pragas urbanas por insetos recai sobre evitar “abrigo, acesso, alimento e água” para os bichinhos.

“A presença de abrigos temporários ou permanentes depende da higiene em frestas, cantinhos, canaletas, lugares onde a limpeza não é tão frequente. Além disso, o combate também depende de impedir o acesso das pragas às instalações combinado com a não oferta de alimentos. Com isso as infestações diminuem e, rapidamente, podem ser eliminadas”, elenca a Divisão da Vigilância Ambiental da Prefeitura.

O que são pragas urbanas?

O Instituto Biológico de São Paulo define como pragas urbanas todos os organismos que alcançam nível de dano econômico, ligado direta ou indiretamente ao homem, seus alimentos e seus pertences. Conforme o diretor do IB, Francisco Zorzenon, “o conceito de pragas urbanas vai além do fator econômico, pois são considerados também aspectos sociais e emocionais, ligados à saúde humana, em que a praga, em si, causa incômodo e desconforto, interferindo na qualidade de vida da população”.

Dessa forma, insetos e outros animais que vivem em “contato íntimo” com o homem entram no grupo dos sinantrópicos. Entre eles estão os ratos, morcegos, pombos e aracnídeos.

Estes estão associados à presença nas cidades, invadindo e colonizando locais necessariamente habitados. Nesses locais, eles praticam danos a construções, interferindo ainda na ornamentação de parques e jardins, sem contar a transmissão de doenças.

“Esses animais podem causar grande incomodo e desconforto em todos os níveis sociais, devido à alta adaptabilidade, capacidade reprodutiva e quantidade de abrigos e alimentos encontrados em áreas urbanizadas”, lembra Zorzenon.

A alta capacidade reprodutiva, associada à competição e predação reduzidas, contribuem para o surgimento das pragas. Outros fatores são a fácil adaptação ao meio urbano, alimentação diversa, abrigos abundantes e dispersão facilitada pelo próprio homem em seu meio.

“O quadrinômio água, abrigo, alimento e acesso, gerado pelo desequilíbrio ambiental – lixões, falta de saneamento básico, tratamento inadequado da água, – inerente à cultura humana, possibilita que diversas pragas usufruam da hospitalidade inconsciente das cidades, dificultando o dia a dia de seus habitantes”, reforça.

Medidas

Mas quais medidas devem ser adotadas quando a praga passa a incomodar, gerar consequências? A equipe da Divisão Ambiental elenca os cinco passos fundamentais. Mas todos convergem para o binômio educação-higiene (leia abaixo).

“Um bom diagnóstico das infestações, implantação de um bom programa de controle integrado de pragas, adoção de barreiras de acesso, adoção de educação sanitária a todas as pessoas envolvidas no  local e boas praticas de higiene e manipulação de alimentos”, responde.

Sem seguir à risca os cinco passos, a batalha contra moscas e insetos estará perdida. Portanto, pouco importa se a infestação é por mosquinha de fruta, de banheiro, de fezes ou outro elemento.

Apesar de pertencerem à mesma família dos mosquitos palha (transmissores da leishmaniose ou úlcera de bauru) as mosquinhas não são transmissoras de doenças. No entanto, causam grande incômodo pela simples presença ou levam a entomofobia (pavor de insetos). Se você não quer ter essas moscas voando em seu banheiro, mantenha o local sempre muito limpo.

Nove cuidados básicos

Seja qual for o manual de procedimentos básicos para evitar a infestação, a higiene e os “bons modos”, como dizem os mais vividos, estão sempre presentes. A equipe de Vigilância do município os elencou.

– Primeiro: Verificar os locais onde há acúmulo de lixo, recolhendo-o ou fechando-o hermeticamente; manter a casa sempre limpa e o terreno do entorno sempre capinado e limpo; remover diariamente todo o lixo em sacos plásticos, principalmente restos alimentares, e lavar periodicamente a lixeira, mantendo-a seca e bem fechada.
– Segundo: Conservação dos alimentos de modo a impedir o alcance das baratas; doces, pães, biscoitos devem ser guardados em vasilhas bem fechadas ou na geladeira.
– Terceiro: Limpeza quinzenal de caixas de gordura, mantendo-as sempre bem fechadas.
– Quarto: Eliminação dos abrigos, rebocando-se ou vedando com silicone frestas e outras fendas; eliminação de mesas e armários de madeira das áreas de alimentação. As frestas de armários de cozinha, em cima e abaixo da pia, devem ser vedadas. O interior desses armários deve ser limpo de forma periódica.
– Quinto: Limpeza diária do fogão e embaixo da geladeira; deixar a bancada da pia bem seca e limpa, sobretudo durante a noite
– Sexto: Revisão de mercadorias e descarte total de todas as embalagens de   papelão ou de madeira usadas para o transporte de alimentos (insetos   adultos ou seus ovos são disseminados desta maneira).
– Sétimo: Eliminação/inspeção dos locais de acesso, tais como: conduítes   elétricos, canalizações de águas pluviais, interruptores de luz, saídas  
de telefones, etc. Manter bem justas as tampas, trocando os espelhos de   tomadas ou interruptores quebrados.
– Oitavo: Limpeza periódica dos ralos da cozinha, área de serviço e banheiros. Usar ralos do tipo abre e fecha para impedir a passagem de insetos quando em desuso.
– Nono: Vedação de borracha em todas as portas que dão para o exterior das   edificações.

Fonte: http://www.jcnet.com.br/Geral/2015/05/falta-de-higiene-favorece-as-pragas-nas-cidades.html